45 Anos de Memória
Quarenta e cinco anos de ciência e tecnologia feitas em Portugal estão no quotidiano de muita gente, frequentemente sem que ninguém o saiba. Esta página reúne os documentos, as fotografias e as histórias que o arquivo guarda, publicados no LinkedIn do INESC à medida que o espólio é recuperado.
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Portugal tem cerca de dois mil e quinhentos quilómetros de costa e uma relação com o oceano que nunca foi só geográfica e sentimental, mas também filosófica e científica. A expansão marítima dos séculos XV e XVI não teria acontecido sem o investimento sistemático em cartografia, astronomia e engenharia naval que a precederam.
O INESC de 1989 sabia disso. Tanto, que escolheu caravelas para a capa da sua newsletter quando quis falar do futuro.
E hoje, o sistema INESC trabalha o oceano sem metáforas.
O INESC TEC lançou em 2025 o INESCTEC.OCEAN, um Centro de Excelência em robótica marinha, energia oceânica e monitorização ambiental.
O INESC INOV desenvolve o MARCONNECT, um projecto Horizonte Europa que viabiliza a partilha de dados de sensores entre navios civis com guardas costeiras europeias em tempo real, permitindo manter seguro o espaço marítimo europeu.
Somos um povo voltado para o mar. E para a ciência também.
Em 1989 o INESC fazia 9 anos e escolheu um nome para a sua estratégia da década seguinte: Vencer o Adamastor.
A escolha não foi sentimental. O Adamastor é o monstro do Cabo das Tormentas nos Lusíadas, mas o que os portugueses usaram para o vencer, para o dobrar, não foi um particular traço de alma, foi sim conhecimento técnico acumulado em cartografia, astronomia e engenharia naval.
Para o INESC de 1989, a analogia era directa. O Adamastor personificava o atraso tecnológico, a dependência científica e a periferia europeia, e o plano para o vencer era o mesmo: desenvolver conhecimento onde ainda não existia antes que a dependência se tornasse inevitável.
Quarenta e cinco anos depois, o Prémio Vencer o Adamastor reconhece quem quer contribuir precisamente para isso.
A 4.ª edição já tem vencedor e o nome está para breve.
Em março de 1987, o Diário Popular anunciava:
“Chama-se «Elena» e vai ser a secretária do futuro. Não fuma, sabe dactilografar uma carta sem erros e tem uma memória infalível. Claro: é electrónica.”
O que o jornal descrevia era o (E)scritório E(le)ctrónico (Na)cional, um projeto desenvolvido pelo INESC, sob o patrocínio do governo, para informatizar serviços públicos portugueses. Portugal precisava de recuperar décadas de atraso administrativo e o ELENA era o sistema que prometia impulsionar esse avanço.
A escolha do jornal de apresentá-la com os atributos de uma secretária ideal, disponível, sem vícios, sem falhas, dizia mais sobre 1987 do que sobre o sistema em si.
Em 2026, muitos assistentes de inteligência artificial continuam a ser apresentados ao público com nomes femininos e a mesma promessa de disponibilidade permanente. As perguntas que o ELENA levantava sobre o que significa delegar trabalho intelectual a uma máquina e quem é responsável pelo resultado são as mesmas que levantamos hoje.
O espólio do INESC está a ser recuperado em parceria com o HTC NOVA FCSH pela investigadora Inês José.
Esta é só uma amostra das várias edições do INFORINESC, a newsletter interna dos anos 80 e 90 do INESC. Uma delas, de 1993, explica à equipa o que são listas de distribuição electrónica e como usar o email institucional.
O INESC estava a explicar aos seus colaboradores o que era a internet.
A investigadora Inês José, do HTC-CFE NOVA FCSH, está a recuperar este espólio.
O que está a ser organizado é também a memória de como Portugal entrou na era digital: quem foram os investigadores, as empresas e as universidades que fizeram esta transição acontecer, quais os projectos que a tornaram possível, que decisões públicas e privadas criaram as condições para que um país sem grande tradição industrial construísse competência tecnológica própria.
Esta história está por escrever, e é isso que este projecto faz.
No mês em que celebramos o Dia Mundial das Telecomunicações, relembramos que a memória da infraestrutura digital europeia não se guarda sozinha
“Como Lisboa não chegava toda ela, o INESC Norte lá nasceu e está de pé.”
Era 1987, a comunidade do INESC cantava isto num bar de Lisboa, na noite do sétimo aniversário do instituto. O polo do Porto tinha três anos e o edifício do Largo Mompilher ainda não existia.
Hoje o INESC TEC faz 41 anos. É Laboratório Associado, obteve classificação de Excelente na avaliação Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) de 2025, e é o terceiro maior beneficiário nacional de financiamento no Horizonte Europa.
O verso envelheceu bem.
Parabéns ao INESC TEC e à sua (e nossa) comunidade.
Nos anos 90, os postes SOS das autoestradas portuguesas tinham um microprocessador incorporado. Quando a Brisa abriu concurso para renovar o sistema de emergência nas suas vias, foi a SETCOM que foi seleccionada. A I&D por detrás da proposta era do INESC.
O sistema ia além da transmissão de voz em caso de emergência. Cada poste recolhia dados sobre as condições meteorológicas do troço onde estava instalado e transmitia essa informação para a central. Os painéis junto aos postes alertavam os automobilistas para o que os esperava mais à frente.
Havia nas autoestradas portuguesas infraestrutura que as pessoas usaram durante décadas sem saber que tinha sido construída a partir de investigação e desenvolvimento feitos em Portugal.
O espólio do INESC, que a investigadora Inês José do HTC-CFE NOVA FCSH está a recuperar, está cheio de histórias assim, que narram simultaneamente os avanços da ciência e da indústria portuguesas precisamente quando começaram a andar de mãos dadas.
São essas histórias e esse arquivo que vamos aqui mostrar.